segunda-feira, 15 de agosto de 2016

É imoral um rio correr no seu leito?

Imagem: Filme Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel

É correto um rio correr no seu leito? Podemos censurar o fato da gravidade atrair os objetos ao solo? Consideraremos perversa a decomposição da comida em água, lipídios, glicídios e proteínas no aparelho digestivo? Diríamos que os elétrons são egoístas em deixar a órbita do seu átomo, movimentando-se para outro, deixando seus companheiros prótons e nêutrons para trás?


Estas perguntas fazem sentido pra você? Parece que categorias de pensamento diferentes (moralidade e leis físicas) estão misturadas, não é? Pois este é o problema enfrentado pelos evolucionistas e materialistas em geral quando se aborda o problema da racionalidade e a moralidade do ser humano. Se seguirmos a premissa deles de que tudo que há no universo deriva das leis físicas e químicas, em última análise os nossos pensamentos são apenas movimento de elétrons de um neurônio para outro, assim como o ar se desloca pela atmosfera e a lua gira em torno da Terra. Não é possível dizer que uma ideia é correta e outra é errada. São apenas sinais elétricos. G. K. Chesterton já havia dito isto, em Ortodoxia:


A própria razão é uma questão de fé. É um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade por mínima que seja.
Se você for simplesmente um cético, mais cedo ou mais tarde precisará perguntar-se o seguinte: "Por que ALGUMA COISA deveria dar certo, mesmo que se trate de observação ou dedução? Por que a boa lógica não seria tão enganadora quanto a lógica ruim? Ambas são movimentos no cérebro de um macaco perplexo".  

A proposição cristã é que, embora a nossa mente use e dependa, até certo ponto, do cérebro, ela não se confunde com ele e nele não está contida. A mente antecede a matéria. Por isso o Deus cristão se diferencia tanto dos outros (falsos) deuses, por não ter corpo ou não ser formado por partes. Deus (digo com reverência) é a grande mente, ou como João fala no seu evangelho, é o logos, o verbo. E o homem, como sua criatura, à sua imagem e semelhança, possui igualmente uma mente, que está vinculada ao corpo mas sobrevive à morte deste. E esta mente é moral: ela possui ferramentas intrínsecas para exercitar o julgamento sobre o que é bom ou mau. E ela faz isso com base em um padrão heteronômico (uma lei externa a ele mesmo; no caso, a lei de Deus, que está incrustada na consciência humana), embora não aja de forma perfeita, pois a vontade (outra particularidade da mente) está prejudicada desde a Queda do homem no Éden.
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