quinta-feira, 9 de julho de 2015

Você não sabe nada - e você, é claro, não sabe disso

A natureza ilusória dos sentidos

Introdução

Como sabemos as coisas? Quando podemos dizer que conhecemos algo? Estas perguntas estão relacionadas a uma área de estudo filosófico chamada Gnosiologia (do grego gnosis = conhecimento + logos = estudo, teoria). A Gnosiologia é uma teoria geral do conhecimento, que reflete sobre a origem, a essência e os limites da ação de conhecer. Gnosiologia é o ramo da Filosofia que estuda o saber, ou melhor, como sabemos o que sabemos. Trata da relação entre o sujeito que conhece e o objeto que é conhecido.

Uma outra palavra relacionada ao conhecer é a epistemologia. Esta é um desdobramento da gnosiologia, aplicada especialmente sobre as ciências, sobre o conhecimento científico. É uma filosofia da ciência. A epistemologia procura responder o que é conhecimento científico, qual o trabalho do cientista e qual é o método científico.

Definição

Quanto à forma de conhecer, os filósofos se dividem em dois grandes grupos: os empiristas e os racionalistas. Os primeiros advogam que o conhecimento só é possível pela percepção dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato), enquanto os últimos promovem a teoria de que os dados sensíveis são captados pelos sentidos e transformados pela mente em um novo tipo de conhecimento. Assim, para os empiristas, só pode ser objeto de conhecimento aquilo que estimula os sentidos, enquanto os racionalistas admitem outro tipo de conhecimento além do advindo de estímulos externos.

Apresentação do Problema

Os empiristas, também chamados de evidencialistas, têm um problema: como é possível confiar nos sentidos? Estes podem apresentar defeitos e nos enganar. Não preciso me estender muito: basta pensar naquelas figuras com ilusões de óptica, tal como a Escada de Ercher [1], ou naquela experiência simples de refração da luz que fazemos no colégio, quando colocamos um lápis dentro de um copo com água. Apesar de termos consciência de alguns destes defeitos, é provável que não conheçamos todos. Assim, toda observação da realidade está viciada, e não pode representá-la como uma verdade absoluta.


Escada de Ercher - a escada que sempre sobe

David McRaney, no seu livro Você não é tão esperto quanto pensa, explica um fato interessante sobre a percepção:

“Os psicólogos Daniel Simons e Christopher Chabris demonstraram isso em 1999. Eles dividiram estudantes em dois times passando uma bola de basquete uns para os outros. Metade usava camisetas brancas e a outra metade usava preto. Simons e Chabris gravaram um vídeo da ação e depois mostraram aos participantes no laboratório. Antes de começar o vídeo, pediram às pessoas para contar, enquanto assistiam, quantas vezes a bola foi passada de uma pessoa para a outra. (...) A maioria das pessoas não teve nenhum problema em chegar à resposta uma vez que olhavam intensamente, quase sem piscar. Os pesquisadores, então, perguntaram aos participantes se notaram algo incomum durante a ação. A maioria das pessoas disse que não. O que os participantes não conseguiram notar era uma mulher com roupa de gorila, caminhando no meio dos jogadores e acenando para a câmera antes de sair casualmente do enquadramento. Quando as pessoas eram perguntadas do que podiam se lembrar, elas descreviam o plano de fundo, a aparência dos jogadores, a intensidade da ação, mas cerca da metade não tinha visto o gorila.”




“Sua percepção é construída a partir do que o interessa (...) Sua visão se estreita como em uma vista de um buraco de fechadura do mundo quando está focado, mas não se amplia para ver tudo quando está relaxado. Você normalmente está ignorando a periferia ou pensando em alguma coisa.”

“O problema com a cegueira não intencional não é acontecer com muita frequência, é que você não acredita que isso acontece. Em vez disso, acredita que vê o mundo inteiro na sua frente. Em qualquer evento em que um testemunho ocular ou uma inspeção mais profunda são importantes, sua tendência em acreditar que possui uma percepção e memória perfeitas leva a erros de julgamento da sua própria mente e da mente dos outros. Os olhos humanos não são câmeras e as memórias formadas não são vídeos.”

Esta descrição do fenômeno, feita por psicólogos, demonstra que mesmo pesquisadores não religiosos entendem o problema da limitação humana. Vincent Cheung, em seu livro Confrontações Pressuposicionalistas, traz outro ingrediente ao problema. Ele argumenta que não é possível obter conhecimento a partir da pura observação, sem que antes se tenha algumas categorias mentais, ou seja, algum conhecimento anterior é necessário para interpretar a realidade e que não é obtida na própria observação. Cheung demonstra isto com o exemplo de um espectador de um jogo de xadrez que desconhece totalmente suas regras:

“Você pode argumentar que é possível derivar algumas das regras do jogo por observação. Mesmo se isso fosse possível, seria muito mais difícil do que a maioria das pessoas pensa. Por exemplo, suponha que você observe que após cada ocorrência daquilo que nós que conhecemos as regras do xadrez chamaríamos de "xeque-mate", os dois jogadores se afastam do tabuleiro de xadrez. O que você pode inferir a partir disso? Você não pode inferir que um deles tenha ganhado, a menos que conheça as regras do jogo. Você precisa saber, antes de tudo, que ele é um jogo, que ele pode ser ganho ou perdido, e como ele é ganho ou perdido. Mesmo que eu permita que você infira que um deles tenha ganhado sem todas essas informações, onde você obtém as categorias "vencer" e "perder"? Você não pode obtê-las observando o jogo em si; antes, você deve trazer essas ideias ao ato de observação.”

As categorias mentais preexistentes são indispensáveis para interpretarmos o mundo:

“Se sua mente é totalmente branca, de forma que você não tem nem mesmo categorias mentais tais como tempo, espaço e causação, nada que você observe será inteligível, e não haverá nenhuma forma de você interpretar o que observa. De fato, se sua mente é um branco total, sem qualquer conhecimento que venha à parte da observação, seu mundo seria pra você como um turbilhão de sensações com nenhuma forma de organizá-las ou interpretá-las. Mas se um conhecimento não-observacional prévio da realidade é requerido para se interpretar apropriadamente a observação sobre a realidade, isso significa que a ordem e o significado do que você observa é imposta sobre o que você observa, e nunca derivada do que você vê. Isto é outra forma de dizer que o significado do que você observa é governado por suas pressuposições.”

Cheung ainda traz um exemplo bíblico, em João 12.28-29, de como a simples observação não pode trazer a verdade:

“Assim que Jesus exclama "Pai, glorifica o teu nome!", a Escritura diz, "Então veio uma voz dos céus: 'Eu já o glorifiquei e o glorificarei novamente'. A multidão que ali estava e a ouviu, disse que tinha trovejado; outros disseram que um anjo lhe havia falado". O testemunho infalível da Escritura diz que a voz expressou uma sentença completa: "Eu já o glorifiquei e o glorificarei novamente". Todavia, alguns daqueles que estavam presentes, que observaram o mesmíssimo evento, disseram "que tinha trovejado". Portanto, a observação não é confiável, e a verdade não pode ser conclusivamente estabelecida pela observação.”

Os empiristas, ainda, precisam explicar o porquê que eles confiam nos sentidos. Esta confiança é pressuposta ou eles observaram que os sentidos são confiáveis? Se for pressuposta, então nem todo conhecimento advém dos sentidos, como eles defendem; se foi observada, seria uma petição de princípio pressupor o funcionamento adequado dos sentidos para observar e provar que os sentidos são confiáveis.

Já o Racionalismo é definido como uma convicção que a razão fornece o melhor ou mesmo o único caminho para a verdade. Em Teologia, o termo racionalismo frequentemente designa uma posição que subordina a revelação à razão humana ou exclui completamente a revelação como uma fonte de conhecimento (C. S. Evans, Approaches to Christian Apologetics). Na apologética cristã, “racionalismo” pode descrever a convicção de que “se evidência apropriada for produzida em favor da fé cristã, um ouvinte, como ser racional, irá inevitavelmente chegar à fé” ou que a evidência “racional” para as alegações à verdade da Bíblia é suficiente para persuadir um inquiridor honesto. Biblicamente, o racionalismo é inválido nas três definições dadas: a razão não pode ser a fonte de verdade infalível sobre a realidade última, pois o homem é tanto finito quanto caído (sua mente não é perfeita desde que a natureza do homem se tornou pecaminosa); a revelação é que valida a razão humana, e não o contrário; e não é a falta de evidências que impede uma pessoa de crer, e sim sua rebelião.

Os racionalistas também estão em problemas, pois além da falta de confiança nos dados dos sentidos, que já vimos ser defeituosa, temos o problema do raciocínio - o trabalho sobre estes dados. A mente não é neutra, ou seja, ela não está imune às paixões; sempre raciocinamos a partir daquilo que já sabemos, das nossas experiências, e influenciados por nossas prioridades do momento. Temos uma forte tendência a selecionar dados, de forma que acolhemos os que nos favorecem, e rejeitamos aquilo que não nos ajuda. David McRaney explica este comportamento. É o viés de confirmação: você pensa que suas opiniões são o resultado de anos de análise racional e objetiva, mas na verdade

“suas opiniões são o resultado de anos em que você prestou atenção a informações que confirmavam o que você acreditava, enquanto ignorava aquelas que desafiavam suas noções preconcebidas”

Ele dá um exemplo: “Se você está pensando em comprar um novo carro de alguma marca em especial, de repente vê pessoas dirigindo aquele carro por todas as estradas. Se terminou uma relação de longa data, toda canção que ouve parece estar falando de amor. Se está para ter um bebê, começa a vê-los por todos os lados. O viés da confirmação está vendo o mundo através de um filtro.

“Meio século de pesquisa colocou o viés de confirmação entre os mais confiáveis bloqueios mentais. Jornalistas, ao contarem uma certa história, devem evitar a tendência a ignorar provas do contrário; cientistas, procurando provar uma hipótese, devem evitar criar experimentos com pouco espaço para resultados alternativos. Sem o viés da confirmação, teorias de conspiração não se manteriam. Nós realmente colocamos um homem na Lua? Se estiver procurando provas de que não enviamos, vai encontrar.”

A mente nos distingue dos outros seres vivos, certamente; mas ela não é perfeita. Raciocinamos mal e muitas vezes com dados incorretos. A mente pode sofrer diversos males que prejudicam seu funcionamento. E as premissas que usamos no ato de pensar moldam as conclusões que obtemos, ou seja, uma ideologia pode influenciar o desenvolvimento do processo de conhecimento.

A premissa que os racionalistas devem provar, e não podem (pois precisam da mente para provar - e é justamente o que está sendo posto em dúvida), é como é possível confiar na mente.

Conclusão

Fica claro que não é possível ao homem buscar a verdade por si mesmo, usando apenas seus recursos naturais, sejam eles os sentidos e/ou a sua mente. O fato é que não podemos assegurar, com certeza, que nossas percepções sobre a realidade estão corretas, não importando se sou empirista ou racionalista, à parte da revelação. Embora o intelecto humano seja extraordinário e faça a nossa raça muito superior às demais do planeta, ele não é perfeito e não pode, enfim, assegurar a certeza de nada sem levarmos em conta as pressuposições corretas da Escritura e as suas implicações. Desenvolverei mais o tema da necessidade das pressuposições em postagens futuras.

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1. O artista gráfico holandês Mauritis Cornelis Escher (1888- 1972) integrou ilusão ótica geométrica em seu trabalho. Sua percepção contraditória de ilusões de ótica ilustrava que toda imagem bidimensional tem um número infinito de possíveis interpretações tridimensionais. Uma das mais famosas é a escada que sempre sobe.
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