domingo, 9 de março de 2014

O princípio de todo o conhecimento



Sócrates afirmou “só sei que nada sei”. Para ele, a verdade estava limitada pela própria ignorância. A verdade só se tornaria visível “pelos olhos da razão”. Sua intenção era levar as pessoas a conhecerem a si mesmas, para que compreendessem o tamanho da sua ignorância e a partir daí procurar obter o conhecimento.

A Aristóteles é atribuída a declaração de que a dúvida é o princípio da sabedoria. Provavelmente, o que ele tinha em mente era que o que impulsionava o homem na busca do conhecimento era a consciência de sua própria ignorância. Se foi esta a intenção do antigo filósofo, nada tenho a rebater. Todo problema filosófico inicia, de fato, com uma pergunta inquietante e sua confissão de desconhecimento. 

Mais tarde, Descartes elaborou o seu cogito, ergo sum (penso, logo existo), estabelecendo as bases modernas do racionalismo, tornando-se um esteio para grande parte da filosofia ocidental. Descartes, como Aristóteles, buscou encontrar um princípio fundamental usando a dúvida como método, chegando ao famoso postulado acima mencionado.

Os céticos modernos, a partir de Kant e Hume, afirmam que nada pode ser conhecido. Segundo Kant, o que podemos perceber são apenas alguns aspectos da realidade, mas a própria essência dela é inacessível. Os sentidos podem nos enganar, resultando na conclusão de que eles não podem dar certeza de nada. Além disso, para Hume a relação entre causas e efeitos é apenas aquilo que nossa experiência percebe através dos sentidos, não havendo necessariamente uma ligação entre um fato gerador e os efeitos observados. A aparente relação que observamos é apenas o resultado psicológico do costume em ver algumas coisas depois das outras, o que é diferente de afirmar que uma coisa é decorrente ou causada por outra.

O que estes pensadores têm em comum? A confiança na capacidade da razão em descobrir a verdade. A racionalidade humana seria autônoma e, excluindo os vícios das paixões que sabotariam o pensamento, sobraria a pura razão para analisar adequadamente a realidade como ela é. Mas qual é a justificativa para alegar tal coisa? 

A autonomia da razão humana não poderia ser justificada pela observação do funcionamento da mente e seus efeitos, pois já deixaria de ser racionalismo para ser empirismo (que já tem os seus próprios males para enfrentar) - e Hume afirmou que não há como provar relações de causa e efeito. Sua justificação não poderia, também, ser pelo próprio raciocínio, já que é exatamente o que se está procurando avaliar - a razão não pode ser juíza de si mesma, sob pena de recair em uma falha de argumentação chamada petitio principii. Kant disse que a essência dos objetos não pode ser conhecida. Mas como ele sabe, então, que há uma essência? Será que aquilo que percebemos não é a própria essência do objeto? A sua própria afirmação é uma percepção da essência ou uma apreensão superficial da realidade? Se for superficial, porque devemos considerá-las correta?

Os céticos modernos, contudo, aparentemente perderam esta confiança injustificada na razão, mas não completamente. Perceba que tanto Kant quanto Hume confiaram em seus juízos para dizer que a razão não é confiável, o que é, obviamente, uma contradição risível, mas, do ponto de vista cristão, compreensível.

Será que é possível saber o que é verdade e o que é falso? Será que existe ‘conhecimento verdadeiro’? Será que a epistemologia é uma disciplina fadada ao fracasso? E o que faremos com o montante de conhecimento que construímos sobre premissas que talvez se revelem falsas?

Até aqui, vimos que aqueles homens considerados grandes pensadores legaram a nós ideias que peremptoriamente levam, se não à contradição, ao total ceticismo. E sendo que elas são os primeiros princípios que fundamentam o restante do que se afirma ser o “conhecimento” humano, o erro contamina todo o sistema. É preciso ter cuidado, pois às vezes, quando um argumento longo é desenvolvido, as premissas ficam tão longe da conclusão que aparentemente ele fica válido, como se as premissas estivessem provadas.

A minha proposta é escrever fundamentado naquilo que se chama pressuposicionalismo bíblico, ou ainda, pressuposicionalismo revelacional. Em postagens futuras quero desenvolver melhor o significado destas expressões. Para o corrente texto, basta saber que, para o cristão, o fundamento último que sustenta todo o conhecimento é toda a revelação infalível da Palavra de Deus - a Bíblia - e somente ela fornece proposições suficientes e verdadeiras sobre a realidade. Esta é a razão do nome deste blog - Como Está Escrito.

Uma objeção frequente a esta forma de raciocinar é que os cristãos baseiam sua concepção de realidade, portanto, em pressuposições de crença. Isso é verdadeiro, mas não só para os cristãos. Todos, inclusive os incrédulos, fundamentam seus pensamentos sobre pressuposições de crença. A diferença está na origem e na natureza destas pressuposições. David Estada, em seu livro La Bíblia: el libro prohibido, escreve que:

“o cristão se fundamenta na informação e revelação divina, ou seja, na Bíblia; enquanto que, para o incrédulo, as pressuposições sobre as quais edifica as suas elaborações e construções descansam em alguns pontos de partida que ele mesmo estabeleceu ou herdou - como resultado de uma fé humanista - como validade última. A questão, assim sendo, não é se um tem e outros não possuem pressuposições de crença, já que tanto o crente quanto o incrédulo as têm, mas o que é importante e decisivo saber é qual é a origem destas pressuposições e que tipo de pressuposições de crença é capaz de elaborar uma resposta verdadeira aos enigmas e questões da realidade. Para o cristão, a origem de suas pressuposições de crença é o próprio Deus - o Deus que fala e se revela -, e no pressuposicionalismo bíblico fundamentado na revelação o cristão encontra a única e genuína resposta válida para todas as questões transcendentais sobre o seu próprio ser e acerca do mundo.” 1

Desta sorte, não tenho a intenção de “defender” a fé cristã de quaisquer ataques que porventura ela sofra. Concordo com as palavras de Charles H. Spurgeon, famoso pregador batista britânico: “o Evangelho não precisa ser defendido, porque ele é como o leão enjaulado. Tudo que temos de fazer é abrir a jaula”. Quem está numa posição de fragilidade intelectual é o incrédulo, e não o cristão. Os textos aqui publicados objetivam “[destruir] os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, [...] levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo”, conforme 2 Coríntios 10:4-5, e “fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas”, conforme Efésios 1:9-10. Afinal, é tarefa do cristão mudar todas as áreas de atuação humana e fazer resplandecer nelas a luz de Cristo, “refletindo como um espelho a glória do Senhor, [sendo] transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” - 2 Coríntios 3:18.

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras [de Jesus] e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras [de Jesus] e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína” - Mateus 7:24.27

Será possível negar Deus e manter a razão? A resposta que eu dou é não. Porque o temor a Deus é o princípio da sabedoria, conforme ensina o Salmo 111, versículo 10.

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1 ESTRADA, David. La Bíblia: el libro prohibido?. Traduzido por Ewerton B. Tokashiki. p. 34-35. http://textocalvinista.blogspot.com.br/2007/12/pressuposio-revelacional.html. Acesso em 20/02/2014.
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