quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Primeiro culto familiar - minhas observações


Então você já leu os livros Adoração no Lar, do Joel Beeke, Redescobrindo o Tesouro Perdido do Culto Familiar, do Jerry Marcellino, e ainda assim não conseguiste implementar o culto familiar na sua casa? Pois eu também enfrentei o mesmo problema.

Há muito tempo procuro implementar o culto familiar na minha casa. Fiz algumas tentativas logo após o casamento, mas não tinha uma boa ideia de como fazê-lo além de leitura bíblica. Depois, aprendi o modo, mas não tinha tempo. Por fim, tenho agora o modo, o tempo e o conteúdo.

Minha maior dificuldade era implementar o conteúdo de uma forma que eu, a minha esposa e meu filho de 4 anos tivéssemos proveito. Resolvi experimentar um método mais lúdico, o qual eu passo a explicar abaixo.

Conteúdo

O material para estudo tinha que ser simples, nada que fosse uma discussão teológica muito pesada. Achei então que uma das confissões de fé poderia ser adequada, já que elas compilam, de forma assertiva e direta, várias ideias bíblicas. No meu caso, usei a Confissão Belga.

Trecho que utilizei:

ARTIGO 1

O ÚNICO DEUS

Todos nós cremos com o coração e confessamos com a boca [1] que há um só Deus [2], um único e simples ser espiritual [3]. Ele é eterno [4], incompreensível [5] invisível [6], imutável [7], infinito [8], todo-poderoso [9]; totalmente sábio [10], justo [11] e bom [12], e uma fonte muito abundante de todo bem. 

[1] Rm 10:10. [2] Dt 6:4; 1Co 8:4,6; 1Tm 2:5. [3] Jo 4:24. [4] S1 90:2. [5] Rm 11:33. [6] Cl 1:15; 1Tm 6:16. [7] Tg 1:17. [8] 1Rs 8:27; Jr 23:24. [9] Gn 17:1; Mt 19:26; Ap 1:8. [10] Rm 16:27. [11] Rm 3:25,26; Rm 9:14; Ap 16:5,7. [12] Mt 19:17. Veja também Is 40, 44 e 46.

Modo

Fiz a leitura de um dos artigos (o primeiro, neste primeiro culto). O fiz pausadamente, e a cada palavra, eu perguntava ao meu filho se ele sabia o seu significado. Não sabendo, eu fazia uma rápida explicação. Para dar um exemplo, o artigo 1º fala que Deus é eterno. Expliquei pra ele que eterno é alguém que vive para sempre, que nunca morre. Ele entendeu, e ainda complementou: ‘não morre que nem as pessoas, né pai?’. ‘Infinito’ foi outro conceito que eu ensinei, e disse para ele que não há nada maior do que Deus. Achei curioso que quando explicava a noção de ‘sábio’, ele lembrou de abelhas. Foi um gatilho importante, porque expliquei para ele como é que as abelhas saiam da colmeia, procuravam flores, e depois voltavam para casa para fazer um mel bem docinho: tudo isso é possível porque Deus as ensinou a fazer isso tudo!

Adoração familiar, pintura por Jean-Baptiste Greuze

Quando terminamos a leitura do artigo, passamos a fazer uma atividade baseada naquilo que lemos. Cada um de nós fez um desenho, o pintou e assinou, enquanto escutávamos algumas canções cristãs que deixei tocando na TV. Às vezes fazia comentários sobre a letra da música e relacionava com aquilo que tínhamos lido. Por exemplo, uma da músicas falava em cura, e aí o lembrei de que Deus é todo-poderoso, e pode ressuscitar pessoas da morte e curar as suas doenças, assim como Jesus Cristo fez, e que ele já tinha ouvido nas histórias que contamos pra ele antes de dormir.

Material

Minha esposa, meu filho e eu sentamos ao redor da mesa de jantar, e diante de nós espalhamos várias folhas de papel em branco, lápis coloridos, tesoura, fita e outros materiais para fazer uma atividade. Também tínhamos a Bíblia, com a Confissão Belga. Deixamos a TV tocando algumas músicas, durante a atividade, mas não durante a leitura do texto de estudo.

Resultado do nosso trabalho :) Abelhas!


Resultado

No dia seguinte, enquanto fazíamos alguma outra coisa em casa, nosso filho repetiu alguns atributos de Deus que havíamos estudado, sem ser provocado a isso, numa associação mental que fez enquanto brincava. Ele entendeu direitinho!


Nos próximos dias faremos novos cultos, e então postarei aqui minhas experiências. Se você tem algo para compartilhar, por favor, deixe seu comentário!

Recomendações de Leitura

Livros:


Artigos:



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

É imoral um rio correr no seu leito?

Imagem: Filme Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel

É correto um rio correr no seu leito? Podemos censurar o fato da gravidade atrair os objetos ao solo? Consideraremos perversa a decomposição da comida em água, lipídios, glicídios e proteínas no aparelho digestivo? Diríamos que os elétrons são egoístas em deixar a órbita do seu átomo, movimentando-se para outro, deixando seus companheiros prótons e nêutrons para trás?


Estas perguntas fazem sentido pra você? Parece que categorias de pensamento diferentes (moralidade e leis físicas) estão misturadas, não é? Pois este é o problema enfrentado pelos evolucionistas e materialistas em geral quando se aborda o problema da racionalidade e a moralidade do ser humano. Se seguirmos a premissa deles de que tudo que há no universo deriva das leis físicas e químicas, em última análise os nossos pensamentos são apenas movimento de elétrons de um neurônio para outro, assim como o ar se desloca pela atmosfera e a lua gira em torno da Terra. Não é possível dizer que uma ideia é correta e outra é errada. São apenas sinais elétricos. G. K. Chesterton já havia dito isto, em Ortodoxia:


A própria razão é uma questão de fé. É um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade por mínima que seja.
Se você for simplesmente um cético, mais cedo ou mais tarde precisará perguntar-se o seguinte: "Por que ALGUMA COISA deveria dar certo, mesmo que se trate de observação ou dedução? Por que a boa lógica não seria tão enganadora quanto a lógica ruim? Ambas são movimentos no cérebro de um macaco perplexo".  

A proposição cristã é que, embora a nossa mente use e dependa, até certo ponto, do cérebro, ela não se confunde com ele e nele não está contida. A mente antecede a matéria. Por isso o Deus cristão se diferencia tanto dos outros (falsos) deuses, por não ter corpo ou não ser formado por partes. Deus (digo com reverência) é a grande mente, ou como João fala no seu evangelho, é o logos, o verbo. E o homem, como sua criatura, à sua imagem e semelhança, possui igualmente uma mente, que está vinculada ao corpo mas sobrevive à morte deste. E esta mente é moral: ela possui ferramentas intrínsecas para exercitar o julgamento sobre o que é bom ou mau. E ela faz isso com base em um padrão heteronômico (uma lei externa a ele mesmo; no caso, a lei de Deus, que está incrustada na consciência humana), embora não aja de forma perfeita, pois a vontade (outra particularidade da mente) está prejudicada desde a Queda do homem no Éden.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Dia do Advogado - Balança enganosa é abominação para o Senhor


Balança enganosa é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer.
Provérbios 11.1

Hoje, dia 11 de agosto, é comemorado o dia do Advogado. Neste dia, em 1827, foram instalados os primeiros cursos jurídicos do Brasil, por Dom Pedro I, em São Paulo e Olinda; motivo da escolha da data.

Está diante do advogado um papel importante no exercício da Justiça. Ele é tão fundamental quanto o é o juiz no desempenho de suas funções. Seja como patrono do autor ou como patrono do réu, o advogado deve buscar, dentro da lei, os recursos disponíveis, bem como zelar para o cumprimento efetivo das regras processuais que visam estabelecer a retidão da futura decisão do magistrado sobre o litígio. Tudo isto independente da culpa ou inocência daquele que está sendo defendido. Como disse Rui Barbosa, em sua célebre resposta à consulta de seu colega Evaristo de Morais Filho, persistida posteriormente no livro ‘O Dever do Advogado’:

As falhas da própria incompetência dos juízes, os erros do processo são outras tantas causas de resistência legal da defesa, pelas quais a honra da nossa profissão tem o mandato geral de zelar; e, se uma delas assiste ao acusado, cumpre que, dentre a nossa classe, um ministro da lei se erga, para estender o seu escudo sobre o prejudicado, ainda que, diz o autor de um livro magistral sobre estes assuntos, “daí resulte escapar o delinquente” (...).
(...)
Recuar ante a objeção de que o acusado é “indigno de defesa”, era o que não poderia fazer o meu douto colega, sem ignorar as leis do seu ofício, ou traí-las. Tratando-se de um acusado em matéria criminal, não há causa em absoluto indigna de defesa. Ainda quando o crime seja de todos o mais nefando, resta verificar a prova: e ainda quando a prova inicial seja decisiva, falta, não só apurá-la no cadinho dos debates judiciais, senão também vigiar pela regularidade estrita do processo nas suas mínimas formas. Cada uma delas constitui uma garantia, maior ou menor, da liquidação da verdade, cujo interesse em todas se deve acatar rigorosamente.

Isto levanta algumas questões importantes para o advogado que também é cristão. O versículo que usei para abrir o texto fala sobre exercer a justiça de forma desleal. Como o advogado cristão defenderá um cliente que aparenta fortemente ser culpado? Ou ainda, sendo ele possivelmente culpado, fazer com que ele escape da condenação em virtude de um erro processual? Não seria isto exercitar uma forma de injustiça? Por outro lado, podendo usar tais recursos legais e deixar de exercê-los, não seria também uma atitude imoral?

Lembro da passagem onde Jesus é instado a julgar Maria Madalena em um caso de adultério. Naquela época adultério era crime, cuja pena era capital, em alguns casos por apedrejamento. Sabemos que Jesus tinha condições de saber a verdade sobre a questão, sendo onisciente. Mas no entanto, Jesus não a condenou, embora soubesse de sua culpa, tanto é que disse a ela ‘vá e não peques mais’. Qual é o mister, aqui? De acordo com a lei judaica de Moisés, para alguém ser punido por adultério, ambos os envolvidos, homem e mulher, deveriam ser condenados. Só a mulher estava ali. Então, fica claro que não era justiça que estava sendo buscada na ocasião, mas era um ardil para desmoralizar Jesus. Se Jesus condenasse aquela mulher, estaria desobedecendo a lei romana (em vigor na Judeia à época) que tomava para os romanos o direito de exercer a pena de morte em território ocupado. Se não condenasse, estaria desobedecendo a lei de Moisés, sendo conivente com o adultério.

“Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” - disse Jesus aos acusadores.

Sabemos o desfecho da história. Todos foram embora, acusados por suas próprias consciências, sobrando apenas a mulher e Jesus.

“Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: ninguém, Senhor! Então lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.” (João 8.10-11)

Em relação a esta passagem, o comentário da Bíblia de Genebra traz alguma luz para compreender melhor o ponto:

[O termo ‘condeno’] é um termo jurídico que indica uma sentença de julgamento emitida por uma corte legalmente constituída (observando as estipulações das exigências mosaicas). Jesus indicou que nenhum procedimento legal foi observado e, consequentemente, não havia base para a punição sugerida. Em seguida, Jesus exortou a mulher para que não continuasse a pecar - uma evidência de que reprovava o seu comportamento imoral.

Aí está, portanto, o dever do advogado. Jesus foi exemplo mesmo nas questões judiciais. Outros exemplos poderiam ser usados, inclusive a condenação do próprio Jesus diante de Pilatos. Que decisão mais injusta do que aquela, em que não se observou quase que nenhuma regra processual?

Mas termino o texto deixando a compreensão de um advogado cristão que não sabia se sua profissão servia ou não à Deus. Quando ele descobriu que Deus distribui diferentes talentos às pessoas, e que elas deviam usá-los para glorificá-Lo, inclusive em suas ocupações profissionais, ele assim resumiu a atividade de um advogado cristão:

“As pessoas consultam advogados quando estão passando por dificuldades. É uma oportunidade fenomenal para ajudá-las a fazer o que é certo”.
“Os advogados podem ministrar a cônjuges que procuram divórcio, orientar adolescentes em dificuldade com a lei, aconselhar homens de negócios em conflitos éticos para fazerem o que é certo, confrontar ministérios cristãos que estejam transigindo os princípios bíblicos. A advocacia não é somente um conjunto de procedimentos ou uma técnica argumentativa. É o meio de Deus confrontar o erro, estabelecer a justiça, defender os fracos e promover o bem público”.
(PEARCEY, Nancy. Verdade absoluta. p.73)


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Você não sabe nada - e você, é claro, não sabe disso

A natureza ilusória dos sentidos

Introdução

Como sabemos as coisas? Quando podemos dizer que conhecemos algo? Estas perguntas estão relacionadas a uma área de estudo filosófico chamada Gnosiologia (do grego gnosis = conhecimento + logos = estudo, teoria). A Gnosiologia é uma teoria geral do conhecimento, que reflete sobre a origem, a essência e os limites da ação de conhecer. Gnosiologia é o ramo da Filosofia que estuda o saber, ou melhor, como sabemos o que sabemos. Trata da relação entre o sujeito que conhece e o objeto que é conhecido.

Uma outra palavra relacionada ao conhecer é a epistemologia. Esta é um desdobramento da gnosiologia, aplicada especialmente sobre as ciências, sobre o conhecimento científico. É uma filosofia da ciência. A epistemologia procura responder o que é conhecimento científico, qual o trabalho do cientista e qual é o método científico.

Definição

Quanto à forma de conhecer, os filósofos se dividem em dois grandes grupos: os empiristas e os racionalistas. Os primeiros advogam que o conhecimento só é possível pela percepção dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato), enquanto os últimos promovem a teoria de que os dados sensíveis são captados pelos sentidos e transformados pela mente em um novo tipo de conhecimento. Assim, para os empiristas, só pode ser objeto de conhecimento aquilo que estimula os sentidos, enquanto os racionalistas admitem outro tipo de conhecimento além do advindo de estímulos externos.

Apresentação do Problema

Os empiristas, também chamados de evidencialistas, têm um problema: como é possível confiar nos sentidos? Estes podem apresentar defeitos e nos enganar. Não preciso me estender muito: basta pensar naquelas figuras com ilusões de óptica, tal como a Escada de Ercher [1], ou naquela experiência simples de refração da luz que fazemos no colégio, quando colocamos um lápis dentro de um copo com água. Apesar de termos consciência de alguns destes defeitos, é provável que não conheçamos todos. Assim, toda observação da realidade está viciada, e não pode representá-la como uma verdade absoluta.


Escada de Ercher - a escada que sempre sobe

David McRaney, no seu livro Você não é tão esperto quanto pensa, explica um fato interessante sobre a percepção:

“Os psicólogos Daniel Simons e Christopher Chabris demonstraram isso em 1999. Eles dividiram estudantes em dois times passando uma bola de basquete uns para os outros. Metade usava camisetas brancas e a outra metade usava preto. Simons e Chabris gravaram um vídeo da ação e depois mostraram aos participantes no laboratório. Antes de começar o vídeo, pediram às pessoas para contar, enquanto assistiam, quantas vezes a bola foi passada de uma pessoa para a outra. (...) A maioria das pessoas não teve nenhum problema em chegar à resposta uma vez que olhavam intensamente, quase sem piscar. Os pesquisadores, então, perguntaram aos participantes se notaram algo incomum durante a ação. A maioria das pessoas disse que não. O que os participantes não conseguiram notar era uma mulher com roupa de gorila, caminhando no meio dos jogadores e acenando para a câmera antes de sair casualmente do enquadramento. Quando as pessoas eram perguntadas do que podiam se lembrar, elas descreviam o plano de fundo, a aparência dos jogadores, a intensidade da ação, mas cerca da metade não tinha visto o gorila.”




“Sua percepção é construída a partir do que o interessa (...) Sua visão se estreita como em uma vista de um buraco de fechadura do mundo quando está focado, mas não se amplia para ver tudo quando está relaxado. Você normalmente está ignorando a periferia ou pensando em alguma coisa.”

“O problema com a cegueira não intencional não é acontecer com muita frequência, é que você não acredita que isso acontece. Em vez disso, acredita que vê o mundo inteiro na sua frente. Em qualquer evento em que um testemunho ocular ou uma inspeção mais profunda são importantes, sua tendência em acreditar que possui uma percepção e memória perfeitas leva a erros de julgamento da sua própria mente e da mente dos outros. Os olhos humanos não são câmeras e as memórias formadas não são vídeos.”

Esta descrição do fenômeno, feita por psicólogos, demonstra que mesmo pesquisadores não religiosos entendem o problema da limitação humana. Vincent Cheung, em seu livro Confrontações Pressuposicionalistas, traz outro ingrediente ao problema. Ele argumenta que não é possível obter conhecimento a partir da pura observação, sem que antes se tenha algumas categorias mentais, ou seja, algum conhecimento anterior é necessário para interpretar a realidade e que não é obtida na própria observação. Cheung demonstra isto com o exemplo de um espectador de um jogo de xadrez que desconhece totalmente suas regras:

“Você pode argumentar que é possível derivar algumas das regras do jogo por observação. Mesmo se isso fosse possível, seria muito mais difícil do que a maioria das pessoas pensa. Por exemplo, suponha que você observe que após cada ocorrência daquilo que nós que conhecemos as regras do xadrez chamaríamos de "xeque-mate", os dois jogadores se afastam do tabuleiro de xadrez. O que você pode inferir a partir disso? Você não pode inferir que um deles tenha ganhado, a menos que conheça as regras do jogo. Você precisa saber, antes de tudo, que ele é um jogo, que ele pode ser ganho ou perdido, e como ele é ganho ou perdido. Mesmo que eu permita que você infira que um deles tenha ganhado sem todas essas informações, onde você obtém as categorias "vencer" e "perder"? Você não pode obtê-las observando o jogo em si; antes, você deve trazer essas ideias ao ato de observação.”

As categorias mentais preexistentes são indispensáveis para interpretarmos o mundo:

“Se sua mente é totalmente branca, de forma que você não tem nem mesmo categorias mentais tais como tempo, espaço e causação, nada que você observe será inteligível, e não haverá nenhuma forma de você interpretar o que observa. De fato, se sua mente é um branco total, sem qualquer conhecimento que venha à parte da observação, seu mundo seria pra você como um turbilhão de sensações com nenhuma forma de organizá-las ou interpretá-las. Mas se um conhecimento não-observacional prévio da realidade é requerido para se interpretar apropriadamente a observação sobre a realidade, isso significa que a ordem e o significado do que você observa é imposta sobre o que você observa, e nunca derivada do que você vê. Isto é outra forma de dizer que o significado do que você observa é governado por suas pressuposições.”

Cheung ainda traz um exemplo bíblico, em João 12.28-29, de como a simples observação não pode trazer a verdade:

“Assim que Jesus exclama "Pai, glorifica o teu nome!", a Escritura diz, "Então veio uma voz dos céus: 'Eu já o glorifiquei e o glorificarei novamente'. A multidão que ali estava e a ouviu, disse que tinha trovejado; outros disseram que um anjo lhe havia falado". O testemunho infalível da Escritura diz que a voz expressou uma sentença completa: "Eu já o glorifiquei e o glorificarei novamente". Todavia, alguns daqueles que estavam presentes, que observaram o mesmíssimo evento, disseram "que tinha trovejado". Portanto, a observação não é confiável, e a verdade não pode ser conclusivamente estabelecida pela observação.”

Os empiristas, ainda, precisam explicar o porquê que eles confiam nos sentidos. Esta confiança é pressuposta ou eles observaram que os sentidos são confiáveis? Se for pressuposta, então nem todo conhecimento advém dos sentidos, como eles defendem; se foi observada, seria uma petição de princípio pressupor o funcionamento adequado dos sentidos para observar e provar que os sentidos são confiáveis.

Já o Racionalismo é definido como uma convicção que a razão fornece o melhor ou mesmo o único caminho para a verdade. Em Teologia, o termo racionalismo frequentemente designa uma posição que subordina a revelação à razão humana ou exclui completamente a revelação como uma fonte de conhecimento (C. S. Evans, Approaches to Christian Apologetics). Na apologética cristã, “racionalismo” pode descrever a convicção de que “se evidência apropriada for produzida em favor da fé cristã, um ouvinte, como ser racional, irá inevitavelmente chegar à fé” ou que a evidência “racional” para as alegações à verdade da Bíblia é suficiente para persuadir um inquiridor honesto. Biblicamente, o racionalismo é inválido nas três definições dadas: a razão não pode ser a fonte de verdade infalível sobre a realidade última, pois o homem é tanto finito quanto caído (sua mente não é perfeita desde que a natureza do homem se tornou pecaminosa); a revelação é que valida a razão humana, e não o contrário; e não é a falta de evidências que impede uma pessoa de crer, e sim sua rebelião.

Os racionalistas também estão em problemas, pois além da falta de confiança nos dados dos sentidos, que já vimos ser defeituosa, temos o problema do raciocínio - o trabalho sobre estes dados. A mente não é neutra, ou seja, ela não está imune às paixões; sempre raciocinamos a partir daquilo que já sabemos, das nossas experiências, e influenciados por nossas prioridades do momento. Temos uma forte tendência a selecionar dados, de forma que acolhemos os que nos favorecem, e rejeitamos aquilo que não nos ajuda. David McRaney explica este comportamento. É o viés de confirmação: você pensa que suas opiniões são o resultado de anos de análise racional e objetiva, mas na verdade

“suas opiniões são o resultado de anos em que você prestou atenção a informações que confirmavam o que você acreditava, enquanto ignorava aquelas que desafiavam suas noções preconcebidas”

Ele dá um exemplo: “Se você está pensando em comprar um novo carro de alguma marca em especial, de repente vê pessoas dirigindo aquele carro por todas as estradas. Se terminou uma relação de longa data, toda canção que ouve parece estar falando de amor. Se está para ter um bebê, começa a vê-los por todos os lados. O viés da confirmação está vendo o mundo através de um filtro.

“Meio século de pesquisa colocou o viés de confirmação entre os mais confiáveis bloqueios mentais. Jornalistas, ao contarem uma certa história, devem evitar a tendência a ignorar provas do contrário; cientistas, procurando provar uma hipótese, devem evitar criar experimentos com pouco espaço para resultados alternativos. Sem o viés da confirmação, teorias de conspiração não se manteriam. Nós realmente colocamos um homem na Lua? Se estiver procurando provas de que não enviamos, vai encontrar.”

A mente nos distingue dos outros seres vivos, certamente; mas ela não é perfeita. Raciocinamos mal e muitas vezes com dados incorretos. A mente pode sofrer diversos males que prejudicam seu funcionamento. E as premissas que usamos no ato de pensar moldam as conclusões que obtemos, ou seja, uma ideologia pode influenciar o desenvolvimento do processo de conhecimento.

A premissa que os racionalistas devem provar, e não podem (pois precisam da mente para provar - e é justamente o que está sendo posto em dúvida), é como é possível confiar na mente.

Conclusão

Fica claro que não é possível ao homem buscar a verdade por si mesmo, usando apenas seus recursos naturais, sejam eles os sentidos e/ou a sua mente. O fato é que não podemos assegurar, com certeza, que nossas percepções sobre a realidade estão corretas, não importando se sou empirista ou racionalista, à parte da revelação. Embora o intelecto humano seja extraordinário e faça a nossa raça muito superior às demais do planeta, ele não é perfeito e não pode, enfim, assegurar a certeza de nada sem levarmos em conta as pressuposições corretas da Escritura e as suas implicações. Desenvolverei mais o tema da necessidade das pressuposições em postagens futuras.

___________________________
1. O artista gráfico holandês Mauritis Cornelis Escher (1888- 1972) integrou ilusão ótica geométrica em seu trabalho. Sua percepção contraditória de ilusões de ótica ilustrava que toda imagem bidimensional tem um número infinito de possíveis interpretações tridimensionais. Uma das mais famosas é a escada que sempre sobe.

domingo, 9 de março de 2014

O princípio de todo o conhecimento



Sócrates afirmou “só sei que nada sei”. Para ele, a verdade estava limitada pela própria ignorância. A verdade só se tornaria visível “pelos olhos da razão”. Sua intenção era levar as pessoas a conhecerem a si mesmas, para que compreendessem o tamanho da sua ignorância e a partir daí procurar obter o conhecimento.

A Aristóteles é atribuída a declaração de que a dúvida é o princípio da sabedoria. Provavelmente, o que ele tinha em mente era que o que impulsionava o homem na busca do conhecimento era a consciência de sua própria ignorância. Se foi esta a intenção do antigo filósofo, nada tenho a rebater. Todo problema filosófico inicia, de fato, com uma pergunta inquietante e sua confissão de desconhecimento. 

Mais tarde, Descartes elaborou o seu cogito, ergo sum (penso, logo existo), estabelecendo as bases modernas do racionalismo, tornando-se um esteio para grande parte da filosofia ocidental. Descartes, como Aristóteles, buscou encontrar um princípio fundamental usando a dúvida como método, chegando ao famoso postulado acima mencionado.

Os céticos modernos, a partir de Kant e Hume, afirmam que nada pode ser conhecido. Segundo Kant, o que podemos perceber são apenas alguns aspectos da realidade, mas a própria essência dela é inacessível. Os sentidos podem nos enganar, resultando na conclusão de que eles não podem dar certeza de nada. Além disso, para Hume a relação entre causas e efeitos é apenas aquilo que nossa experiência percebe através dos sentidos, não havendo necessariamente uma ligação entre um fato gerador e os efeitos observados. A aparente relação que observamos é apenas o resultado psicológico do costume em ver algumas coisas depois das outras, o que é diferente de afirmar que uma coisa é decorrente ou causada por outra.

O que estes pensadores têm em comum? A confiança na capacidade da razão em descobrir a verdade. A racionalidade humana seria autônoma e, excluindo os vícios das paixões que sabotariam o pensamento, sobraria a pura razão para analisar adequadamente a realidade como ela é. Mas qual é a justificativa para alegar tal coisa? 

A autonomia da razão humana não poderia ser justificada pela observação do funcionamento da mente e seus efeitos, pois já deixaria de ser racionalismo para ser empirismo (que já tem os seus próprios males para enfrentar) - e Hume afirmou que não há como provar relações de causa e efeito. Sua justificação não poderia, também, ser pelo próprio raciocínio, já que é exatamente o que se está procurando avaliar - a razão não pode ser juíza de si mesma, sob pena de recair em uma falha de argumentação chamada petitio principii. Kant disse que a essência dos objetos não pode ser conhecida. Mas como ele sabe, então, que há uma essência? Será que aquilo que percebemos não é a própria essência do objeto? A sua própria afirmação é uma percepção da essência ou uma apreensão superficial da realidade? Se for superficial, porque devemos considerá-las correta?

Os céticos modernos, contudo, aparentemente perderam esta confiança injustificada na razão, mas não completamente. Perceba que tanto Kant quanto Hume confiaram em seus juízos para dizer que a razão não é confiável, o que é, obviamente, uma contradição risível, mas, do ponto de vista cristão, compreensível.

Será que é possível saber o que é verdade e o que é falso? Será que existe ‘conhecimento verdadeiro’? Será que a epistemologia é uma disciplina fadada ao fracasso? E o que faremos com o montante de conhecimento que construímos sobre premissas que talvez se revelem falsas?

Até aqui, vimos que aqueles homens considerados grandes pensadores legaram a nós ideias que peremptoriamente levam, se não à contradição, ao total ceticismo. E sendo que elas são os primeiros princípios que fundamentam o restante do que se afirma ser o “conhecimento” humano, o erro contamina todo o sistema. É preciso ter cuidado, pois às vezes, quando um argumento longo é desenvolvido, as premissas ficam tão longe da conclusão que aparentemente ele fica válido, como se as premissas estivessem provadas.

A minha proposta é escrever fundamentado naquilo que se chama pressuposicionalismo bíblico, ou ainda, pressuposicionalismo revelacional. Em postagens futuras quero desenvolver melhor o significado destas expressões. Para o corrente texto, basta saber que, para o cristão, o fundamento último que sustenta todo o conhecimento é toda a revelação infalível da Palavra de Deus - a Bíblia - e somente ela fornece proposições suficientes e verdadeiras sobre a realidade. Esta é a razão do nome deste blog - Como Está Escrito.

Uma objeção frequente a esta forma de raciocinar é que os cristãos baseiam sua concepção de realidade, portanto, em pressuposições de crença. Isso é verdadeiro, mas não só para os cristãos. Todos, inclusive os incrédulos, fundamentam seus pensamentos sobre pressuposições de crença. A diferença está na origem e na natureza destas pressuposições. David Estada, em seu livro La Bíblia: el libro prohibido, escreve que:

“o cristão se fundamenta na informação e revelação divina, ou seja, na Bíblia; enquanto que, para o incrédulo, as pressuposições sobre as quais edifica as suas elaborações e construções descansam em alguns pontos de partida que ele mesmo estabeleceu ou herdou - como resultado de uma fé humanista - como validade última. A questão, assim sendo, não é se um tem e outros não possuem pressuposições de crença, já que tanto o crente quanto o incrédulo as têm, mas o que é importante e decisivo saber é qual é a origem destas pressuposições e que tipo de pressuposições de crença é capaz de elaborar uma resposta verdadeira aos enigmas e questões da realidade. Para o cristão, a origem de suas pressuposições de crença é o próprio Deus - o Deus que fala e se revela -, e no pressuposicionalismo bíblico fundamentado na revelação o cristão encontra a única e genuína resposta válida para todas as questões transcendentais sobre o seu próprio ser e acerca do mundo.” 1

Desta sorte, não tenho a intenção de “defender” a fé cristã de quaisquer ataques que porventura ela sofra. Concordo com as palavras de Charles H. Spurgeon, famoso pregador batista britânico: “o Evangelho não precisa ser defendido, porque ele é como o leão enjaulado. Tudo que temos de fazer é abrir a jaula”. Quem está numa posição de fragilidade intelectual é o incrédulo, e não o cristão. Os textos aqui publicados objetivam “[destruir] os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, [...] levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo”, conforme 2 Coríntios 10:4-5, e “fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas”, conforme Efésios 1:9-10. Afinal, é tarefa do cristão mudar todas as áreas de atuação humana e fazer resplandecer nelas a luz de Cristo, “refletindo como um espelho a glória do Senhor, [sendo] transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” - 2 Coríntios 3:18.

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras [de Jesus] e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras [de Jesus] e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína” - Mateus 7:24.27

Será possível negar Deus e manter a razão? A resposta que eu dou é não. Porque o temor a Deus é o princípio da sabedoria, conforme ensina o Salmo 111, versículo 10.

***

1 ESTRADA, David. La Bíblia: el libro prohibido?. Traduzido por Ewerton B. Tokashiki. p. 34-35. http://textocalvinista.blogspot.com.br/2007/12/pressuposio-revelacional.html. Acesso em 20/02/2014.